O desassossego de Fernando Pessoa

Capa do Livro do desassossego

Postado por: Marianne Bufalo

Falar de literatura sem ao menos citar o nome de Fernando Pessoa, é talvez, o maior dos esquecimentos. E não digo isso por gosto pessoal ou por qualquer tipo de imposição. Tamanha é sua amplitude literária e reflexiva, que, no mínimo, reconhecimento, este brilhantíssimo autor, certamente, merece. Isto é para nós, que somos futuros jornalistas. Para os leitores, que são possíveis estudantes, advogados, médicos, donas de casa, professores, biólogos, filósofos. Isto é para nós… Que somos humanos. Na obra “Livro do Desassossego”, encontramos uma coletânea de centenas de fragmentos escritos por Fernando Pessoa, mas apenas doze que foram publicados. Os temas são comparados a um quase diário íntimo: descrição das coisas através dos efeitos que elas exercem na mente, a elucidação de estados psíquicos, reflexões e devaneios sobre a moral, a paixão, o conhecimento, e as mazelas mais íntimas da alma.

Fernando Pessoa cria um mundo e o obriga a refletir-se nas palavras. A escolha do nome desse livro não poderia ter sido melhor: Livro do Desassossego. E causa um verdadeiro desassossego com suas palavras minuciosamente trabalhadas e de caráter bastante intenso. Após essa leitura, posso garantir-lhes, caros leitores, que a inquietude adormecida dentro de cada um de nós irá “desassossegar”.

Agora, desfrutem de um trecho desta obra fantástica:

“Tenho mais pena dos que sonham o provável, o legítimo e o próximo, do que dos que devaneiam sobre o longínquo e o estranho. Os que sonham grandemente, ou são doidos e acreditam no que sonham e são felizes, ou são devaneadores simples, para quem o devaneio é uma música da alma, que os embala sem lhes dizer nada. Mas o que sonha o possível tem a possibilidade real da verdadeira desilusão. Não me pode pesar muito o ter deixado de ser imperador romano, mas pode doer-me o nunca ter sequer falado à costureira que, cerca das nove horas, volta sempre à esquina da direita. O sonho que nos promete o impossível já nisso nos priva dele, mas o sonho que nos promete o possível intromete-se com a própria vida e delega nela a sua solução. Um vive exclusivo e independente; o outro submisso das contingências do que acontece.

Por isso amo as paisagens impossíveis e as grandes áreas desertas dos piamos onde nunca estarei. As épocas históricas passadas são de pura maravilha, pois desde logo não posso supor que se realizarão comigo. Durmo quando sonho o que não há; vou despertar quando sonho o que pode haver.

Debruço-me, de uma das janelas de sacada do escritório abandonado ao meio-dia, sobre a rua onde a minha distração sente movimentos de gente nos olhos, e os não vê, da distância da meditação. Durmo sobre os cotovelos onde o corrimão me dói, e sei de nada com um grande prometimento. Os pormenores da rua parada onde muitos andam destacam-se-me com um afastamento mental: os caixotes apinhados na carroça, os sacos à porta do armazém do outro, e, na montra mais afastada da mercearia da esquina, o vislumbre das garrafas daquele vinho do Porto que sonho que ninguém pode comprar. Isola-se-me o espírito de metade da matéria. Investigo com a imaginação. A gente que passa na rua é sempre a mesma que passou há pouco, é sempre o aspecto flutuante de alguém, nódoas de movimento, vozes de incerteza, coisas que passam e não chegam a acontecer.

Anotação com a consciência dos sentidos, antes que com os mesmos sentidos… A possibilidade de outras coisas… E, de repente, soa, de detrás de mim no escritório, a vinda metafisicamente abrupta do moço.

 Sinto que o poderia matar por me interromper o que eu não estava pensando. Olho-o, voltando-me, com um silêncio cheio de ódio, escuto antecipadamente, numa tensão de homicídio latente, a voz que ele vai usar para me dizer qualquer coisa. Ele sorri do fundo da casa e dá-me as boas-tardes em voz alta. Odeio-o como ao universo. Tenho os olhos pesados de supor.”

 

 

 

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Publicado em 17 de agosto de 2011, em Cultura e marcado como , , , , . Adicione o link aos favoritos. 2 Comentários.

  1. Parabéns pelo post Marianne! Todos os textos de Fernando Pessoa são incríveis… é uma pena as pessoas não darem o devido valor que a literatura merece. Boa a iniciativa do blog de criar uma editoria que inclua lit em cultura, afinal tudo o que fomos, o que somos e o que seremos está registrado nos livros. Bjos

    • Obrigada Antônio. Concordo que toda nossa história ficará registrada na literatura e mesmo assim essa não recebe o devido valor. Entretanto, ainda há muitas pessoas que são fascinadas por um bom livro. E esse fato é que o que nos motiva a manter uma parte do blog destinada a esse assunto. Não deixe de conferir os próximos posts! Beijos

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