Sérgio Ricardo promove um grito a favor das artes

Sérgio Ricardo: cantor, compositor e comprometido com o futuro das artes no país

 
 

Quando citamos o nome do músico brasileiro, Sérgio Ricardo, a primeira imagem que nos vem à cabeça é a de sua apresentação no Festival de MPB de 1967, no qual ele atirou um violão na plateia por não conseguir tocar sob o som das vaias proferidas durante sua música. Naquele momento, Sérgio Ricardo buscava reconhecimento pelo seu trabalho, de forma um pouco radical e talvez imatura, como reconhece o próprio cantor anos mais tarde. Atualmente, ele encabeça o movimento G.R.I.T.A (Grupo de Resistência às Irregularidades no Terreno das Artes) e dedica parte do seu tempo na organização de propostas e estratégias para atrair tal reconhecimento não só a ele, mas a todos os atuantes no meio artístico.

Veja o que o cantor e compositor tem a dizer sobre esse projeto:

Eh Tipo Internet? – Em sua opinião, as carências de todos os setores artísticos (música, dança, literatura, artes plásticas…) do país são as mesmas?

Sérgio Ricardo – Como atuo na criação de variadas formas artísticas, percebo uma grande semelhança entre os problemas de cada uma, advinda do intrincado e tendencioso apoio a cada atividade, embarreirando não só a liberdade de expressão, como a realização das obras não padronizadas ou desprovidas da ação deturpada na forma de captar um financiamento, mesmo ao projeto aprovado por lei. Uma obra, para atingir seu objetivo, hoje, é obrigada a passar por vários funis, e raros são os que o atingem. Não só porque demanda um tempo de espera infinito, levando a maior parte à desistência. Como também pelo desgaste de terem que se adaptar às exigências de cada degrau da escada: custos que o primeiro obstáculo reduz por considerar alto, e só aprova com cortes. Nomes famosos da mídia no elenco (cinema, teatro, dança, música, etc.), sem os quais o patrocinador não aprova, sem contar com o conteúdo que não pode ferir o sistema, os valores burgueses, isto ou aquilo,que venha tocar nos valores  da casta que detém o dinheiro. Só até aí, os gênios já estão excluídos. Sobram alguns de talento que insistem na espera das aprovações e alterações, somados a um bando de medíocres que se sujeita aos obstáculos, cuja persistência acaba por abocanhar grande parte do bolo. O sistema está absolutamente invertido, necessitando de uma reforma urgente para salvar nossa cultura que agoniza a olhos vistos.

 

ETI – Como foi a repercussão e a receptividade do G.R.I.T.A entre os profissionais do meio artístico?  Houve apoio por parte de artistas que não são do ramo da música, mas sim de campos como o das artes plásticas, dança, literatura, etc?

SR – Resolvemos iniciar a luta por partes, escolhendo a música como a primeira delas, por já estar em discussão cerrada contra os desmandos no campo do direito autoral. Uma CPI em curso, e a classe musical bastante mobilizada. Por isto, embora obtivesse adesões de outras categorias, não foi jogado ainda o anzol para a pesca de outras reivindicações. Mas está nos planos.

 

ETI – A internet e o hábito de baixar músicas revolucionaram o mercado fonográfico. Em sua opinião, essas mudanças foram positivas para os artistas ou os fere da mesma maneira que acontece com as gravadoras?

SR – Fere da mesma maneira. A arte é um prato cheio para qualquer tipo de exploração. O artista que era explorado pelas gravadoras, que fugiram do disco numerado, e tiveram que fechar suas portas e entregar o ouro à internet, que, por sua vez, insiste em não cobrar por acesso à qualquer música. O prejudicado é sempre o artista. O que leva à singela conclusão de que o sistema capitalista, no fundo é a causa do caos. Enquanto tudo girar em torno do dinheiro, a arte levará desvantagem em tudo. Porque vive num outro universo. No universo da beleza, dos sentimentos, da tentativa de entendimento entre os seres, na busca da evolução do ser humano, etc. e esbarra sempre com a mesquinhez dos aproveitadores. Pior ainda que a internet é o disco pirata, o filme pirata, as reproduções de pintura piratas, e por aí a fora. No dia em que fosse feita uma greve geral da música, por exemplo? Não é permitido mais a reprodução ou transmissão de música alguma até que se resolva o problema autoral, nas rádios, TVs, internet etc. etc. o que aconteceria? O Brasil, simplesmente, morreria de tédio. 

 

ETI – No blog do G.R.I.T.A, estão elencados alguns dos motivos para sua criação. Já há um plano de ação em andamento, com o intuito de melhorar as condições da produção artística no país?

SR – Sim.  Para isso, no entanto, precisamos da adesão de um numero bastante representativo para alcançarmos uma força que estimo em pelo menos de 5.000 adeptos. Temos até o momento em torno de 1.000 dos mais aguerridos, a espera natural e espontânea dos demais, que caminha lento como se previa, dada a várias desmotivações da categoria. Descrentes alguns, outros temerosos de perderem seu quinhão, ou alienados de sua própria realidade. Iniciaremos um debate num fórum a espera de um momento oportuno para finalmente extrairmos das discussões uma agenda de reivindicações a ser executada.

 

ETI – O blog do G.R.I.T.A evidencia algumas rachaduras existentes entre os próprios artistas. Em sua opinião, quais as principais razões que impulsionam esses desentendimentos internos? Qual a melhor maneira de reverter essa situação?

SR – Esta é a questão em busca de entendimento. Toda arte mexe muito com a vaidade individual e é natural que surjam idiossincrasias. Patotas, rachas, discordância, etc. Claro que não venceremos todos estes problemas. Mas o fato é que num dado momento, quando as ações começarem a vingar, a harmonia poderá ser alcançada. A batalha não é fácil, pois com uma chama acesa num graveto não é possível se pretender alcançar a potência de uma labareda, sem a espera necessária. A pressa pode destrui-la num simples sopro. Mas está crescendo.

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Publicado em 5 de outubro de 2011, em Cultura e marcado como , , , , , . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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